Filhos diferentes de um mesmo Deus por Ana Santos
Os muçulmanos são cada vez mais associados ao terrorismo nos dias que correm. A Europa, que tem uma longa tradição judaico-cristã, depara-se hoje com uma pluralidade vasta de religiões, credos, sub-culturas, radicalismos, minorias étnicas e minorias religiosas. Os problemas acrescem com a ignorância em torno do outro. Grupos fecham-se em comunidades muito particulares, concomitantemente grupos de intelectuais do ocidente abandonam o catolicismo, que passou de geração em geração, para aderir a novas religiões como a hindu e a budista.
À parte das convicções, Portugal padece de um Estado laico. Para o português comum não existem grandes diferenças dentro dos muçulmanos. A comunidade muçulmana vive uma vida bastante parecida com a do típico português, sendo difícil identificar muitas vezes crentes muçulmanos inseridos num grupo de inúmeras pessoas. Se em França a religião muçulmana é a segunda religião que reúne maior número de crentes, tendo já havido necessidade de adoptar legislações próprias para controlar certos hábitos e certas práticas relacionadas com a fé, Portugal não se pode queixar do mesmo.
A comunidade muçulmana está disseminada por todo o mundo. Muitas vezes esta religião é erradamente associada apenas aos países árabes quando na verdade existem países asiáticos descendentes dos persas como o Irão com múltiplos crentes, o que mostra portanto que esta comunidade é bastante plural. A comunidade francesa muçulmana está intimamente ligada com as suas antigas colónias e os imigrantes oriundos destas. Em Portugal o caso é semelhante havendo contudo uma diferença ao mesmo tempo: ambos os países receberam imigrantes muçulmanos mas França crentes maioritariamente do Norte de África enquanto os muçulmanos portugueses estão ligados sobretudo a Goa, Damão, Diu e a pequenas localidades perto destas. Falar de muçulmanos em Portugal obriga-nos a falar da comunidade de descendentes indianos, mais uma vez o desconhecimento do português é grande. Para o português comum a comunidade indiana é de certa forma homogénea mas e se se afirmar que em Portugal, a menor probabilidade de haver um casamento entre outras religiões seria entre um indiano hindu e um indiano sunita? O mesmo acontece se se falar dos sikhs, dos ismaelitas e dos budistas. Não existe mistura possível. Os descendentes de indianos admitem porém com leveza que não haveria problema já se se tratasse de um casamento entre um crente de uma destas religiões e um católico.
Apesar desta divergência e desta ignorância em torno do outro ainda não houve nenhuma tensão assinalável em Portugal, ao contrário da vizinha Espanha ou da aliada Inglaterra relativamente à comunidade muçulmana. Os jovens muçulmanos não sentem qualquer tipo de racismo em seu redor. Não se consideram uma minoria étnica mas antes uma minoria religiosa. Dizem-se possuidores de uma identidade portuguesa.
A par de uma secularização acelerada da Europa surgem, porém, novas manifestações de espiritualidade no continente europeu ao ponto de o islamismo ser hoje a segunda religião em França. Enquanto o hinduísmo e o budismo conquistam notoriamente terreno junto dos meios intelectuais do ocidente, temos assistido a um revivalismo religioso de certa forma dada a curiosidade e a cobertura mediática feita em torno deste pluralismo, fenómeno que se oporia à expulsão de Deus de uma ordem gnóstica pós-moderna que se vê marcada pela pretensão de fazer da razão o motor universal da existência.
Atravessado por ondas sucessivas e heterogéneas de vagas de novos fluxos populacionais a Europa vê-se a braços com uma extraordinária diversidade de credos. Os imigrantes confrontados com as adversidades de uma vida longe da sua pátria de origem e com a dureza de uma integração económica, nem sempre tão fácil como se afigurava, à primeira vista, leva a que o papel das igrejas e das comunidades que em torno delas se reúnem, seja de primordial importância. Torna-se numa imigração a outro nível, uma imigração espiritual.
Uma Europa que outrora cruzou os oceanos e mares à descoberta do novo mundo, espalhando as maravilhas do ocidente pelos quatro cantos, viu Portugal como um dos países de cruzadas, colonizador, propagando o cristianismo com a missão de converter os hereges ao catolicismo.
A imigração que se está a viver na Europa é um fluxo com características diferentes de outrora. Em Portugal existe uma comunidade muçulmana, que nada tem a ver com os muçulmanos que viveram em Portugal durante a Idade Média. Os imigrantes são na sua maioria naturais das antigas colónias portuguesas de Moçambique e Guiné-Bissau, que se fixaram em Portugal após a independência desses territórios e de pequenas partes da Índia.
A religião muçulmana em Portugal dos dias de hoje, está intimamente associada à comunidade de origem indiana das antigas colónias portuguesas. A imigração indiana para Portugal pode ser descrito essencialmente em dois períodos. O primeiro teve origem durante a ocupação portuguesa em Goa, Damão e Diu, terminada com a invasão militar de 1961 daquelas colónias. O seu imã - líder religioso que os muçulmanos xiitas acreditam deve ser um descendente de Ali e de sua esposa Fátima - Aga Khan, que está no topo da hierarquia especifica desta facção religiosa, “disse aos ismailis que foram para Moçambique para se adaptarem à sociedade portuguesa. Antes de serem indianos, vocês são portugueses. Por isso os meus pais sempre me fizeram ver que nós não éramos uma minoria étnica. Somos portugueses, mas temos uma religião diferente”, revela Adil de 21 anos, descendente de avós indianos e de pais oriundos de Moçambique. Durante o período de ocupação portuguesa das colónias muitos alunos vieram estudar para universidades portuguesas e muitos outros vieram trabalhar com um leque de qualificações, ao contrário do que acontece com outros surtos de imigração de outros povos esta primeira vaga era portanto qualificada e instruída. O deputado Narana Coissoró recorda que “Portugal proporcionou transporte a todos os goeses que quisessem vir, segundo o jornal Público. A presença de originários da Índia em solo luso é claramente visível a partir de 1974. Os goeses e os gujaratis (ver mapa), que constituem a grande fatia das “pessoas originárias da Índia a viver no país, estão bem integradas neste, representando uma taxa de delinquência infantil e de insucesso escolar muito pouco significativa”, segundo Susana Pereira Bastos membro do Observatório de imigração em Portugal.
Apesar de não haver ainda um distanciamento suficiente nota-se uma vaga de imigração nos anos 90, oriundos da província indiana de Punjabis, que se fixaram essencialmente na região de Lisboa e do Algarve para trabalhar na construção civil e no comércio, sendo o negócio do mobiliário o mais ilustrativo. Contudo, esta comunidade diversificada que se afirma como portuguesa sente, segundo um estudo feito pelo Supergoa - uma das suas instituições de apoio à comunidade indiana - que o sentimento que prevalece entre os goeses em relação a Portugal é de ódio (39%) e de indiferença ou ignorância (34%), sendo apenas 27% os que afirmam sentirem amizade e admiração. As causas relacionadas com esta resposta tão negativa e ambígua estão relacionadas com o facto de sentirem que Portugal não lhes presta apoio suficiente na preservação do seu património e da sua identidade goesa. Sentem igualmente que foram esquecidos e que a sua contribuição para o grande Império durante séculos e mesmo durante o período ditatorial não existe. Esta população sente necessidade de criar outras formas de afirmação da sua cidadania e projectar a identidade, agarrando-se para já à religião. Porém, existe um factor muito curioso. Índia é um país de maioria hindu e budista, em Portugal são no entanto uma minoria comparado às raízes muçulmanas, tendo os hindus originários da Índia preterido Portugal pela Inglaterra. Outrora porta para o Oriente e um grande ponto estratégico para Portugal, nos dias de hoje os goeses reclamam o seu passado desejando verem-no valorizado.
Existem 70 mil indianos em Portugal, segundo um relatório do Alto Comissariado da Diáspora Indiana. O que é realmente importante reter é que “apesar de terem adaptado a língua e a nacionalidade portuguesa, estes grupo mantêm a sua distinta identidade sócio-religiosa”, segundo Narana Coissoró. A maior comunidade religiosa dentro dos descendentes das colónias é realmente ismaelita, um ramo que parte dos xiitas, havendo uma pequena porção ainda sunita, sendo considerados mais conservadores pelos ismaelitas. Fortemente ancorados na religião, os muçulmanos souberam desenvolver importantes estratégias de articulação entre os diferentes núcleos. A teia de relações familiares e a manutenção dos fluxos migratórios constituem os suportes informais da rede transnacional reforçando-se com a institucionalização das estruturas de relações inter-comunitarias. No caso dos ismaelitas, houve um maior reforço não se ficando apenas pelo nível religioso, construindo uma nação ismaelita, outrora dispersa por vários países num protocolo sem território e sem ambições territoriais. Enquanto que a maioria dos goeses são pautados por uma invisibilidade social e geográfica, dada a sua discrição, os ismaelitas – indianos também - deixam marcas mais visíveis no espaço urbano, concentrando-se em certos sítios e criando relações sólidas no mundo dos negócios. À parte dos ismaelitas os restantes originários da Índia sentem um vínculo muito acentuado com as suas origens. Acabaram por tomar caminhos diferentes. Os ismaelitas tornaram-se no que eles apelidam de muçulmanos modernos, seguindo Aga Khan e todos os seus passos e conselhos. Aga Khan é como que o Papa para os cristãos. Contudo, os sunitas não o aceitam, criticando severamente os caminhos que os ismaelitas têm seguido, considerando os outros muito mais materialistas que dão mais valor, no entender sunita, aos bens e ao convívio dentro dos seus pares à religião em si.
O seu imã, Aga Khan, criou uma fundação, com um cariz filantropo aproveitando o seu próprio nome. A sua missão não tem como ideal ajudar só os muçulmanos mas contém um plano que abrange todos os povos do mundo, dando uma atenção especial na sua missão aos países do 3º mundo lutando pela independência destes relativamente ao ocidente. Interpretando as directivas do Alcorão este líder religioso, também com ambições erradicar a pobreza, levar o ensino a bom porto, ajudar no campo da saúde, na problemática financeira aproveita supostamente um décimo da riqueza de cada ismaelita, que é previsto no Alcorão. Este líder de massas já foi apelidado pelos media como o capitalista de risco do 3º mundo dada as aventuras que tem feito em prol da sua missão.
A história retrata os descobrimentos como um período glorioso para os vários países, Portugal não é excepção. Grandes escritores imortalizados na literatura portuguesa como Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa, enalteceram esse período áureo da história. Todavia, o grande império de outros tempos com Vasco da Gama como bom feitor, num ideal de espalhar os bons costumes e a verdadeira religião, de nada serviu. O império ruiu, a religião não foi adoptada e, é neste século XXI a religião que cresce com maior ritmo. Os muçulmanos divididos sobretudo em sunitas e ismaelitas tomaram, em território luso, caminhos diferentes sem nunca descorar da sua religião. Sunitas continuam seguindo os cinco pilares, praticando o Ramadão, a profissão de fé, bem como o não fumar, não beber, criticando incessantemente os ismaelitas por romperem com estes mandamentos mesmo em frente do centro Ismaelita em Lisboa.
Apesar do esforço da bi-culturalidade promovido pelas gerações parentais foi justamente aquando da frequência da escola portuguesa que os jovens sunitas ismaelitas experenciaram o sentimento de serem diferentes e também as primeiras e geralmente únicas memorias de discriminação. A cor da pele e certas prescrições alimentares (relacionadas com a proibição de comer carne de porco), constituem os principais marcadores de tais vivências.
Os pais investem numa inserção bem sucedida dos descendentes, a maioria dos pais dos nossos interlocutores propiciou-lhes o ensino oficial, em português, em estabelecimentos não-muçulmanos estatais ou privados. Favorecer a integração das crianças implicou no entanto, um controlo restrito dos seus quotidianos escolares e extra-escolares, bem como uma pressão crescente sobre os seus filhos para que criassem laços com pares da mesma rede familiar e comunitária. A iniciação à religião vivida, bem como a transmissão de determinados valores e tradições culturais inclusive a das línguas maternas Gujarati ou Kutchi era da responsabilidade da família extensa, sobretudo das mães, das tias e das avós. Em simultâneo, e desde tenra idade, são encorajados a frequentar aulas suplementares de religião islâmica ou de língua materna, bem como a participar nos encontros e programas para jovens, organizados pelas respectivas comunidades. Todavia, é de bem pequeno que o muçulmano entra nos rituais específicos da comunidade sendo circuncizado e recebendo uma quantia módica em dinheiro pelo acto que acabou de ser realizado. Esta pequena cirurgia é recebida com uma enorme alegria por parte do seio familiar e amigo uma vez que é celebrado com grande pompa e circunstância, onde são recordadas outras histórias e alegrias.
O muçulmano português é maioritariamente indiano. Sai para os mesmos locais que os outros jovens. Os pais apelam a que eles não saião muito do seio da comunidade. Os jovens não comem carne de porco por respeito, vão à missa por respeito. Os traços originais vão sendo seguidos mais a preceito por uns, menos por outros. A verdade é que Portugal não tem com que se queixar desta religião. Afinal, partilham todo o mesmo Deus, uma vez que Maomé diz que vem em nome de Deus rectificar o que os judeus e cristãos estão a fazer mal segundo os mandamentos de Deus.
Wednesday, February 21, 2007
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