Sunday, February 18, 2007

Décimo Primeiro Número do Subversivo

Farpa, por Ana Santos
Apenas duas palavras: “Trash TV”. Sim, meu caro leitor, estou a falar obviamente de todos os programas matinais, e de início de tarde, que tornam a nossa sociedade num bando de débeis mentais. Já não basta o tico não ir ao ginásio para se exercitar, as grelhas de televisão querem matar o desgraçado do teco dos pobres espectadores que apenas dispõem de 4 canais de televisão. Relembro-te fiel leitor que o tico e o teco são os respeitados neurónios portugueses imortalizados pelo Herman.
Lamento ter de utilizar um conceito estrangeiro neste início de farpa, não que não aprecie a diversidade da nossa bonita língua mas, infelizmente, ainda ninguém teve a brilhante ideia de inventar um conceito à altura desta regurgitante grelha de programação.
Entro no café e quase tenho pena de ver aqueles desafortunados seres que desrespeitam de forma cabal a nossa língua materna. Os jovens com ou sem calão, com ou sem abreviaturas dão cada vez mais erros. Existe um descoro à nossa volta. Estranho é não entrarmos neste turbilhão de erros e desrespeitos ao prontuário que ferem por certo o nosso caro Camões e todos os nossos embaixadores da Língua Portuguesa pelo mundo fora.
Se o ministro da Defesa tivesse real amor à pátria, implementaria, antes das aulas, um ritual, que deveria ser muito bem ensaiado, aviso já, e pensado. Os professores e alunos jurariam – com a mão direita junto ao coração, numa posição hirta e noutra mão o dicionário, claro:
- que não iriam ofender nem desrespeitar a nossa língua materna;
- que iriam esforçar-se por lutar veemente contra esse monstro da mediocridade divulgado pela televisão e por esses vegetais que por aí andam que conspurcam a imagem do ser português e do seu bom-nome.
Pois vê com os teus bons olhos se eu não tenho razão!
Se começarmos pelo primeiro canal vemos um esforço hercúleo para agradar à terceira idade. Todos os dias desencantam uma avó com uma história mais rebuscada e inverosímil que a outra. Em média a pobre coitada tem de ter parido no mínimo sete filhos durante a sua vida e, mesmo assim, possivelmente o produtor acha que sete serão poucos para atingir determinadas audiências. Por sua vez, estes sete filhos tiveram, no mínimo, de copular umas cinco vezes de forma eficaz – cada um deles – para fazer com que a querida mamã apareça na televisão:
Pergunta o leitor qual o motivo? Então, a desforra, claro! Fazer inveja à vizinha do terceiro esquerdo que infelizmente lhe ganhou na semana passada no programa da tarde, que foi a telespectadora 20,330 a telefonar para a TVI, e que adivinhou (com todo o mérito) a palavra Natal. Adivinhou pois então que Natal, era a palavra referente à época que, segundo a apresentadora: “Estávamos todos a comemorar e que apenas tínhamos de pensar numa vogal para acrescentar”. Bem, a vizinha tinha o seu mérito, não é qualquer um que olha para a palavra ali meio despida e adivinha – em tão escassos 45 minutos e entre as vastas cinco vogais – a fórmula desejada: “Deixa cá ver: natil, não... espera, natol, ai soa-me mal. Talvez natal, é isso! Natal!”. Como a linda apresentadora disse de forma tão simpática: “é uma época onde recebemos presentes vindos do Pai Natal”, descobriu a vizinha de forma bastante perspicaz, diga-se de passagem.
Na minha humilde opinião não existe forma mais complicada de se ganhar 1500 euros. É muito esforço mental. Tenho dito.
Voltando ao primeiro canal, durante a manhã a velhinha tem de contar que no seu tempo não havia muito que fazer então ela e o Manel foram fazendo amor e olha no resultado que deu. Isto vindo de um canal público dá que pensar. De certo que é uma política encoberta para incitar o aumento da taxa de natalidade, só pode. É daí que vem a ideia do simplex, malandro do Sócrates, lá que é simples é. Ora vejamos: uma idosa, várias fotos, uma longa vida de trabalho para dar o precioso contributo e um apresentador jeitoso que abrace de forma carinhosa as senhoras e lhes dê a mãozinha.
No canal seguinte está possivelmente a salvação daqueles que rejeitam tanto estímulo mental. Um jovem que corre com um cão azul à procura de algo com um cenário rosa por trás. O rapazinho não só fala com o cão como fala com alguém – que ainda ninguém percebeu muito bem quem é. Declaradamente um programa para crianças, mas, mais uma vez, demasiado exercício mental.
O canal diz que não entende as baixas taxas de audiências mas acho que está bem visível meu caro leitor: demasiada energia despendida mentalmente. Tenho dito.
E que tal pensarem no que entendem por crianças e depois qual o futuro que desejam para o nosso país? Sim, porque com este programa garanto que nos depararemos com dois grandes problemas: jovens que falem para as coisas erradas e um grave problema semiológico. Depois os que eventualmente vierem parar à ESCS queixar-se-ão dos testes surpresa e da facílima teoria de Peirce, sem qualquer tipo de razão, é claro. Isto já para não falar nas facadas dadas na nossa preciosa língua materna pois erroneamente crianças terão na cabeça que existem cães azuis mas que o pai e a mãe não gostam deles porque não lhes deram o dito cão azul. Por certo lhes mentiram ao dizer que tal coisa não existia quando eles viam (muito bem!) que o cão era azul, apesar de se chamar blue. Oh que confusão!
O meu caro leitor deve estar a pensar: está bem, mas ainda faltam dois, que tendes a apontar sobre os outros dois?
Ao qual eu te confesso que até me dá um forte ataque de urticária só de pensar nos dois restantes canaizinhos privados. Grr. Vou tentar que a minha urticária se transforme numa farpa que, por sua vez, provoque alguns danos naquela epiderme pesada e temerosa. Abaixo a tolice disse eu. Pois disse, mas a tolice é tanta, que nem sei por onde começar a enumerar.
Ambos os programas têm uma parte humorística em que aparece sempre um triste e brejeiro que fala invariavelmente mal português, umas vezes intencional, outras vezes não. Bem, depois temos de reflectir sobre o que se entende por comédia. Trocadilhos fáceis são geralmente as suas principais escolhas, onde a ordinarice é rei e impera. O público ri-se. O técnico faz sinal ao público para se rir. O público ri-se. Vá, agora um grande plano do senhor desdentado a rir-se!
Pergunta que valores passam para o espectador, leitor?
Que ser-se desdentado é bom!
De manhã, em vez de irmos ao dentista arranjar os dentinhos podres que nos dão aquele mau hálito desconfortável mas que permite ir à vontade na camioneta com uma clareira à volta, vamos aos programas de televisão.
Aí ouviremos tragédias, nunca antes narradas, que chamam declaradamente uma lagrimazinha ao cantinho do olho e nos fazem pensar “Que mundinho cruel o meu”.
De seguida ouvem-se mais quatro pessoas frustradas da vida que rogam pragas uns aos outros e competem sobre quem insulta e descredibiliza mais rapidamente, e de forma mais absurda, uma figura qualquer supostamente mediática onde vale tudo! Mesmo tudo. Desde filmes pornográficos onde se discute se a Elsa Raposo de facto pode ou não fazê-los com o actual namorado a criticas sobre o vestido de noiva da sobrinha afastada de um mafioso qualquer do futebol que ligeiramente abaixo da anca, vincava e ela parecia grávida, pelo que alguém maldosamente exclamava: “Ah! Em pleno século XXI casar-se de branco grávida”. Ao que alguém velozmente, passados dois perpétuos dias, desmentia a afirmar que ela é simplesmente gorda. Leia-se: com cinco gramas a mais acumuladas ali naquele sítio específico que apenas se vê com um zoom de 150% a gordurinha. Mas única e exclusivamente de perfil – atenção que é muito importante este pormenor.
Sem esquecer as pérolas do bom português: “Hades ver se ela estava gorda ou não”; “Ai não, a ex-namorada do Pinto da Costa não era uma prostituta, ai! Mulher da vida, ai! Acompanhante.”; “Tivestes razão aí, mas quando eu desfolhei a Ana atrevida dizia que o Pinto tinha achado que a senhora era dama de companhia por isso não faltes ao desrespeito”.
Assim se fala bom português na nossa televisão sempre muito bem moderada por eloquentes oradores: “Tem cinco minutos para falarem as cinco sobre ele disse o Goucha, ele disse a elas, não ouviram?”
Meu caro leitor tendes razão quando pensas que o código oral é mais flexível, mas a tolice tem limites.
Que valores e que linguagem estamos nós a passar na nossa caixinha mágica?
Damos voz aos coitadinhos onde os portugueses são preteridos por estórias. A RP da discoteca mais concorrida que já namorou com metade do elenco da novela do horário nobre é mais importante que alguém que dê prestígio ao nosso terreno à beira mar plantado.
Morte à tolice! Que infâmia! Que injuria!
Espero que esta urticária tenha trespassado para eles e que tu, meu fiel leitor, me compreendas e me apoies. Como seremos olhados no futuro? Espero que os próximos humoristas nos atribuam mais neurónios numa próxima análise, mas, com esta televisão, mais facilmente serão azuis que em maior número.
Agradeçamos este legado aos chefes de programação por zelarem pela nossa (falta de)inteligência.

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