Wednesday, February 21, 2007

Décimo Sexto Número do Subversivo

Os intocáveis, crónica dos mitos académicos, por Ana santos

Cursos míticos: Direito, Engenharia e Medicina serão os pilares que sustentam a sociedade?

“O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo.”
Fernando Pessoa

Cátia Nunes chega a Sete rios de mão dada com o namorado, ambos com um sorriso rasgado. Olham para os monitores à procura do próximo transporte a apanhar para chegar à cidade universitária. Enganam-se várias vezes. Cátia começa a ficar nervosa. Parece que afinal o mais difícil não era entrar em direito mas antes saber como chegar à Faculdade. De repente apercebe-se do comboio que tem de apanhar. Volta a sorrir como se lhe tivesse saído a sorte grande.
Cátia Nunes tem 19 anos, conseguiu entrar no ano passado na Faculdade de Direito de Lisboa, estando neste momento no 2º ano do curso. Sempre tirou boas notas. Considera-se lutadora. Quando olhou para a fachada do edifício ficou deslumbrada. Contudo, bastou entrar dentro do edifício para deixar de se sentir especial. Apercebeu-se num instante que era apenas uma aluna em 550.
O gosto pela ciência e pelos computadores fizeram Manuel Barrento optar pelo curso de engenharia. Acabou a licenciatura no ano lectivo passado. Tem 25 anos e um dia-a-dia muito preenchido. Para Manuel engenharia é sinónimo de inovação. Admite ter sido muito duro concluir o curso, afirmando que fez os possíveis e os impossíveis para acabar com sucesso.
Antes de entrar na Faculdade de Ciências e Tecnologias achava o curso engraçado e acessível. A primeira impressão que teve ao chegar à Faculdade foi marcante: teve a sensação “de estar num mundo à parte. Quando cheguei a casa depois do primeiro dia de aulas pensei: Isto é para malucos, vou desistir!”. Mas não desistiu.
Vanda Estríbio empenha-se em tudo o que se envolve. Habituou-se a ser a melhor aluna. Habituou-se a ser uma nadadora de referência, durante um período de tempo, a nível nacional. Desde cedo teve de aprender a lidar com variadas pressões e expectativas. A família de Vanda não tem muitas posses económicas. Convinha que Vanda escolhesse um curso seguro.
Sentindo-se atraída pela área da saúde, Vanda conseguiu a média necessária para entrar na Faculdade de Medicina em Lisboa. A realidade era diferente daquilo a que estava habituada. “Foi um recomeçar: conhecer pessoas novas, fazer novas amizades, habituarmo-nos a apresentações orais, trabalhos, exames escritos e orais”. Em medicina os alunos são recebidos como um grupo de elite. É-lhes incutida a ideia de que eles são os melhores dos melhores. As regras do jogo mudam: a famosa frase “errar é humano” é substituída por “errar é um crime”. Actualmente, Vanda tem 21 anos e frequenta o 4º ano.
O que é um mito? Numa pequena definição, mito é algo que adquire uma carga simbólica para uma dada cultura. É uma narrativa fantástica que pretende explicar a origem e a causa das coisas. Será que Medicina, Direito e Engenharia são cursos míticos? Cátia, Manuel e Vanda acham que sim.
Em termos históricos estes foram os primeiros cursos a abrirem nas Universidades. Contudo filosofia e os cursos de professores não têm o mesmo estatuto. Embora haja uma maior oferta de cursos estes três cursos mantêm-se intactos.
Cátia ficou confusa e triste nos primeiros tempos. Pensou muito. Aos poucos foi vendo colegas a desistirem. Chegou a pensar seriamente em desistir e voltar a candidatar-se noutro curso. As primeiras notas que recebeu foram negativas e positivas baixas. Ela desconhecia tal sentimento.
Tinha escolhido Direito pelo ideal de poder defender uma causa, o poder expressar opinião e a possibilidade de ajudar na resolução de problemas da sociedade. Apesar de não ser o caso da Cátia, Direito é um curso frequentemente usado para ascender a determinado tipo de cargos como cargos políticos.
Cátia conseguiu acabar o primeiro ano. Agora que olha para trás confessa “Pensei que fosse diferente [Direito], mas não estou desiludida.” Deparou-se com um curso com uma maior componente teórica do que esperava. Pensa que quem entra no curso pelo mito rapidamente se vai embora pois “é-nos exigido um grande esforço, é um curso muito trabalhoso, é preciso ler muito, estudarmos sozinhos. É fundamentalmente um curso de investigação.” Têm de consultar paralelamente outros livros para terem uma noção global. A competição vai aumentando gradualmente. Rodeados de pessoas individualistas Cátia afirma, sem grande convicção, “até agora ainda não senti reflexos significativos de uma competição extrema”. Direito é um curso que parece estar parado no tempo. Ainda existem histórias sobre os Professores Catedráticos. Ouvem-se histórias de que uns são preteridos em vez de outros, já tendo perdido amigos e sofrido desilusões mas não se querem expor, é perigoso. Neste tipo de matéria, Cátia só comenta que alguns professores os desmoralizam e que outros os ignoram apenas debitando matéria.
Garante no final da conversa que a Sociedade precisa e sempre precisará de Direito uma vez que Direito consiste no estudo das regras e princípios que disciplinam as relações humanas e que fazem a sociedade funcionar. Apesar da sociedade não dar o devido valor aos advogados e juízes, no seu ponto de vista.
Perguntei ao Manuel qual tinha sido a coisa mais impossível que ele tinha conseguido tornar possível, ao qual ele me respondeu: tirar engenharia. Surpreendeu-se com a evolução que teve ao longo dos anos pois o seu primeiro choque foi exactamente o grau de dificuldade dos exames. Agora que está inserido no mercado de trabalho ambiciona trabalhar na área das energias renováveis.
Engenharia é a actividade em que os conhecimentos científicos e técnicos e a experiência prática são aplicados para exploração dos recursos naturais, para o projecto, construção e operação de objectos úteis. Os alunos de engenharia sentem que a sociedade tem uma boa opinião a seu respeito. Segundo Manuel “a sociedade tem consciência que a engenharia é o futuro para resolver grande parte dos problemas da humanidade (…) é muito importante aplicar as tecnologias ao serviço da medicina e do ambiente.” O projecto de final de curso de Manuel foi acerca das energias renováveis. Pois, para ele, um dos objectivos da engenharia “é ajudar a sociedade a ter uma vida mais saudável”. Os melhores alunos da sua turma acreditavam estar a tirar “um curso bastante completo e atractivo para o mercado de trabalho”, segundo este. Contudo, admite que nem tudo é positivo: reconhece que engenharia é uma profissão com grande desgaste psicológico e a sua maior desilusão foi “fazer um projecto final de curso bastante interessante para ficar na gaveta”. Não sente ter um estatuto diferenciado mas “quando ganhar um prémio Nobel, acredito que tenha outro estatuto”, refere com humor.
Por fim desmistifica engenharia como algo “forte em matemática, adorável em electrónica, complicado em programação e óptimo em conhecimento”.
Em medicina, Vanda crê que o mito surge com a ideia de uma elite, de “que somos todos super inteligentes e de que no futuro vamos trabalhar pouco e ganhar muito”. Super inteligentes ou não o facto é que ela não conhece alguém que tenha desistido do curso. Devido à carga horária sente necessidade de fazer pausas de vez em quando “para não enlouquecer com tanta coisa”. Aprendeu a adoptar uma posição de adaptação. A competitividade é fomentada pelos professores apesar dos alunos também a alimentarem “temos de saber tudo e quando não sabemos é uma vergonha, logo há que ser o melhor. Para além do que dado o nosso percurso académico já estamos habituados a notas elevadas e a abdicar desse pedestal é difícil”. Pensava que o curso era diferente. Ela e uma amiga admitem ter abdicado da sua vida pessoal em detrimento do curso. No primeiro contacto com o mercado de trabalho apercebeu-se da realidade: “muitas horas sem dormir, uma vida agitada, com pouco tempo para aplicar os conselhos que damos aos outros”. Ela e os colegas brincam dizendo que gostavam de ter o horário das senhoras da repartição “das 10 às 15 horas com hora de almoço. Desiludiu-se com a arrogância dos alunos e dos professores. Conta que existem professores muito queridos mas também outros que a seu ver “não têm a mínima consideração por nós, nos ridicularizam, nos humilham e desrespeitam”. Fez alguns amigos, o que considera fundamental. Vê a medicina como algo que permite “fazer o bem ao próximo.” A seu ver se a medicina não existisse “acabaria por ser inventada. O homem é um ser muito curioso”, o avanço noutras áreas levariam ao avanço desta.
Todos entraram com expectativas e sonhos diferentes do que o que encontraram. Olham em redor e não se arrependem contudo. Gostavam que a sociedade lhes desse mais valor. Afirmam com segurança que a sociedade precisa deles. Haverá justiça para ser reposta, haverá sempre gente doente e problemas por solucionar.

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