Wednesday, February 21, 2007

Décimo Quinto Número do Subversivo


Dissertando… por Maria Lúcia Gonçalves

Pensei em contar-vos uma historia sórdida e deprimente sobre mendigos, mas o tema é por si só tão tenebroso e asfixiante, que após reflectir sobre o assunto, recuei. Vou sim dar azo ao repúdio e ao vómito que poderá suscitar a complexa imagética da figura de um ser mendicante, totalmente alheio ao que o rodeia, visualizando dia após dia o seu fim próximo. E vou falar-vos de algo mais prático: o nojo.
Descrever a pobreza na sua ínfima degradação é a opção continuada dos media, a todo o momento somos aturdidos por vozes cansadas e gastas na praça publica que reafirmam a necessidade de se excluir das sociedades modernas este flagelo, é facto, parece mal, é feio à vista! Pois é. Mais repugnante ainda é a venda de produtos sob o formato de reportagem que se faz desta mesma conjuntura. E nós, seres ingénuos e estupidificados lamentamos como é triste ver criancinhas e velhinhos cabisbaixos e deixados à sua sorte. Tristonhos lá vamos nós acreditando num Portugal futurista cujo fim da pobreza ansiamos que esteja para breve...
Sim, vamos acabar com a pobreza, idílica e musicalmente ouvem-se coros de gentinha que faz o apelo, é romântico, mas subversivo. O que não é facto e dificilmente admissível é a demagogia que paira sobre cada uma destas vozes. Olhos brilhantes e bocas melódicas falam carinhosamente de humanos que por razoes que a sociedade (des)conhece vivem à margem ou dentro de uma cidade qualquer. Repito, o que não é facto é a aversão que cada uma destas vozes sonantes não reclama a si, uma aversão enojada e doentia que se reflecte no quotidiano desta cidade das sete colinas e das centenas de becos. Em cada recanto desta Lisboa habitam seres pensantes, homens e mulheres sem horizonte e que exponencialmente acreditam que cada dia que o sol faz nascer será um dia melhor. Contudo, ao virar de cada esquina, cruzam-se olhares fastidiosos e deveras entediados por se confrontarem com a cena de ontem e que sabem ser a de amanha. Os que ontem obtusamente choraram o que viram numa televisão ou num jornal qualquer, hoje, enojam-se e escorraçam quem deles se aproxima.

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