Wednesday, February 21, 2007

Décimo Oitavo Número do Subversivo

O sonho, por Ana Santos

“Sonho: nome masculino. 1. Actividade psíquica involuntária que se manifesta, durante o sono, numa sequência de imagens e de ideias produzidas pela mente. […] a) O que é agradável e deixa o sonhador feliz. b)Desejo pouco realista, FANTASIA, ILUSÃO. […]
2.Coisa imaginada mas sem existência real, que carece de realidade, de fundamento ou não tem probabilidade de vir a acontecer, FANTASIA, ILUSÃO, UTOPIA. […]
3. Forte aspiração, desejo intenso. […] A máxima aspiração.
4. O que é muito bom e muito belo. […]” Dicionário Verbo, Língua Portuguesa)

O sonho é algo universal, partilhado por todos os seres humanos e pelos animais. Eu, própria, sonho imenso, quer durante o meu leve sono quer quando estou acordada. Todos nós temos o nosso “micro-mundo” mas, o meu transborda de sonhos e devaneios.
Um dia fiz essa observação ao meu médico (à cerca da minha grande actividade nocturna), ao qual ele retorquiu com uma pergunta: “Entre mim e si quem julga que sonha mais?” Eu, um pouco confusa com tal pergunta, respondi-lhe que não fazia a mais pequena ideia. Ele desafiou-me a arriscar uma resposta, eu sem saber o que responder disse-lhe: “ok. Posso ser eu… talvez…”, reticente sobre que rumo aquela conversa iria tomar. Finalmente, o médico esclareceu-me que todos sonhamos na mesma quantidade, o que acontecia é que uns se lembravam melhor do que outros.
A prova de que todos sonhamos, quer acordados, quer a dormir, são as resmas de páginas escritas, músicas compostas bem como dissertações sobre o conceito de sonho ou sobre os seus próprios sonhos. Quem não se lembra do poema da Pedra Filosofal de António Gedeão “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer […]. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida e que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança”. O sonho é uma filosofia de vida arrojada. Há quem tenha medo de sonhar, ou de partilhar, por timidez, o seu sonho. O que mais gostei quando entrei na ESCS foi ter inúmeros professores a perguntarem-me: “Qual é o seu sonho?”. Vivemos numa sociedade desencantada e com medo de sonhar.
O sonho foi aquilo que sempre comandou a vida desde os primórdios da História. Os homens primitivos sonhavam como seria não ter frio. Então caçaram e encontraram a forma de fazer fogo para se aquecerem. O sonho da justiça e de uma sociedade organizada levou os romanos e os gregos a criarem a democracia e a palavra cidadão. Havia o sonho de criar um corpo perfeito e, no renascimento, Miguel Ângelo, Rafael, Da Vinci, entre outros, criaram as mais bonitas formas de arte. Tudo porque sonharam e lutaram para realizarem os sonhos. Havia o sonho do povo português descobrir o que havia para lá do cabo das tormentas assim como se o mundo era quadrado. Perseguindo o seu sonho descobriram que afinal o mundo era dividido por continentes, redondo e cheio de diferenças.
A História está repleta de epidemias e grandes catástrofes e ao mesmo tempo de homens que foram capazes de transformar os seus sonhos em curas e fórmulas de evitar catástrofes. Ao longo dos séculos houve guerras e grandes lutas que foram lideradas por homens que tinham um sonho. Apesar de Martin Luther King já ter morrido, muitas pessoas não se esquecem deste grande defensor da igualdade de direitos que ficou imortalizado pela frase” I HAVE A DREAM” (eu tenho um sonho) [referia-se ao final da discriminação racista por parte dos americanos].
Porque damos tanto mérito a escritores como Gil Vicente e Eça de Queirós? Porque eram pessoas que, através do seu dom, o da escrita, tinham um sonho: melhorar a nossa sociedade e vê-la evoluir (não obstante da sua qualidade enquanto escritores).
Desde sempre me fascinaram grandes figuras nos mais variados ramos, inspiram as novas gerações e mostram-lhes que se sonharem e ambicionarem algo possivelmente conseguiram obter os seus objectivos, por muito utópicos que sejam como é o caso da música de John Lennon Imagine.
O sonho pode ser a inspiração para uma vida feita de sorrisos, suor e lágrimas mas igualmente de recompensas. Algo penoso que nem todos se atrevem a seguir.

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