Wednesday, March 7, 2007

Vigésimo Sétimo Número do Subversivo

O homem de borracha

Menino pobre, filho de uma família que mal tinha dinheiro para o pão e vinho sobre a mesa que Amália imortalizou. Era assim naqueles tempos do regime salazarista. Com apenas 11 anos Manuel Bento teve de se fazer homem à pressa e ir trabalhar como ajudante de pedreiro para que os dias fossem menos negros.

Como homeme grande atravessou a meninice, alimentando a cada dia o sonho de que o futebol lhe suavizasse mágoas e o resgatasse da miséria que por essa altura assombrava a grande maioria dos lares portugueses. Assim, com apenas 15 anos começou a escrever uma verdadeira ode ao espírito de sacrifício, que a vida era para ser encarada de mangas arregaçadas. Tornou-se guarda-redes do Riachense e para se treinar tinha de percorrer todos os dias, ao fim de horas e horas a trabalhar no duro, cinco quilómetros de bicicleta.

Jogou depois mais pertinho de casa, nos juniores do Goleganense. Um dia chegou de Lisboa convite para se treinar à experiência no Sporting. Durante três meses viveu no lar de Alvalade. Um dirigente disse-lhe uma vez que deveria voltar à Golegã para convencer a gente lá da terra a dar-lhe a carta de desvinculação sem que os leões pagassem um tostão. «Tamanha injustiça para um clube tão pobre», pensou. Falou mais alto a dignidade quando disse não. Fez a mala e regressou. Na camioneta um único pensamento lhe invadia a alma: no Sporting nunca jogaria, nem que lhe dessem todo o dinheiro do Mundo.

A fantástica história do menino que não quis prejudicar o clube que o formou atravessou o Tejo, chegou por portas e travessas ao Barreiro. Em 1966, a troco de 15 contos, ficou acertada a contratação do promissor guarda-redes pelo Barreirense.

Dois anos mais tarde já notícias do seu talento atravessavam o país de lés a lés. Chegara a hora da vingança pelo que acontecera anos antes. O Sporting corria embalado para o título quando o Barreirense foi a Alvalade. Bento defendeu tudo o que havia para defender e trocou o passo aos leões. A admiração dos benfiquistas terá começado nessa tarde. Aumentou no ano seguinte, quando o guarda-redes foi decisivo para o quarto lugar do Barreirense, que levou o clube à Taça UEFA.

Depois de tanto sofrer, a vida começava a sorrir-lhe. A 8 de Dezembro de 1970 um fabuloso convite fê-lo sentir-se nas nuvens. Um sonho, jogar no Estádio da Luz, na festa de homenagem a Mário Coluna, representando uma selecção do Mundo recheada de estrelas. Nesse jogo em que defrontou o Benfica foi suplente do mítico Yashin. Fez exibição de sonho. Os dirigentes encarnados nas bancadas, de boca aberta, juraram que o contratariam. Conseguiram. Assinou em Agosto de 1971.

Quando chegou era José Henrique dono e senhor das balizas da Luz. Com Pavic como treinador, em 1974/75 tudo mudou. Nas asas de Bento o Benfica voou alto. Mas foi de quinas ao peito que, em Glasgow, assinou tão portentosa exibição que os jornalistas ingleses lhe colaram o epíteto de... homem de borracha.

Há quem passe a vida disfarçado de homem simples mas de quando em vez não resiste a transformar-se em herói. Bento também não resistiu... Num gélido dia, em Moscovo, com o Torpedo como adversário, a eliminatória resolveu-se no desempate por pontapés da marca da grande penalidade. Defendeu dois e, talvez por inspiração divina, arregaçou as mangas e foi marcar o derradeiro. Golo... O Benfica seguiu em frente.

Bento viveu também momentos de pesadelo. O seu chama-se Saltillo. O pesadelo dos portugueses chama-se... México-86. O pé calcou mal a relva, o sofrimento, esse, fez doer bem mais a alma. De novo o fado a reger os destinos de Portugal. «Para além de ter sido a minha desgraça, foi também a desgraça de Portugal. Quando me lesionei houve jogadores que entraram em pânico, dizendo-me ao ouvido que comigo de muletas o sonho tinha acabado. Sinceramente, acho que se não tivesse tido aquele azar não teria, sequer, havido... Saltillo no futebol português. Mas, como há males que vêm por bem, mal seria não ter havido Saltillo...».

Retirado integralmente de 60 heróis da nossa vida, revista oferecida pelo jornal A Bola em 29/01/2005. Autor desconhecido.



Homenagem a Manuel Galrinho Bento, falecido a um de Março de 2007, aos 58 anos, vítima de ataque cardíaco.

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